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terça-feira, 28 de setembro de 2010

A história se repete IV- final.

Hoje a aldeia Tekoá Mboy-Ty (Aldeia de sementes) está reconstruída. A casa de reza foi a primeira a ser erguida, é lá que o índio fortalece seu Espírito e preserva sua cultura.
Estão sendo oferecidos Curso de Guarani, apresentações do Coral de Crianças e Jovens, oficina de escultura em madeira, pinturas corporais, comidas Tradicional, pesca e artesanato, esses últimos são produtos que dão sustentabilidade aos índios. Muitas pessoas procuram a aldeia para visitação, muitos colégios levam seus alunos para terem o primeiro contato com os verdadeiros donos desta terra.
Também são procurados por muitos turistas nacional e estrangeiros na ânsia de conhecê-los, ter contato com a cultura, tirar fotos e fazer uso de seus artesanatos. Constantemente os índios guarani são procurados por pesquisadores, escritores, professores, estudantes, grupos de fotógrafos e profissionais de todas as áreas para melhor desenvolvimento de seus trabalhos de campo nas universidades. Os guarani são dóceis, mantêm sua língua e sua cultura, suas danças e rituais dentro da própria aldeia e atendem os “juruás” (brancos na língua guarani) com atenção e educação. Essa família quer a Demarcação daquela pequena área no final da Praia de Camboinhas. Acredita-se que com a presença dos índios guarani naquela área os sambaquis serão realmente preservados e impedirá novas construções de condomínios. O prefeito de Maricá, Washington Quaquá ofereceu apoio aos índios e estava decidido a transferí-los para uma área de Proteção Ambiental (APA) da União na Barra de Maricá. A área é um sítio entre as praias de Itaipuaçu e São José. A Pajé Lídia gostou do local que tem rio para pesca e tem terra para plantio, ponto forte dos índios guarani que são voltados ao cultivo de milho, mandioca, feijão e outros produtos. Segundo o cacique Darci, os índios poderão promover o reflorestamento da reserva ambiental. "Nosso objetivo é fortalecer a natureza". Mais com a demora de se resolver tal doação das referidas terras, os guarani, no mês de setembro de 2010 decidiram ficar em Camboinhas, o que para nós é motivo de muito alegria. Sejam bem-vindos irmãos.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A história se repete III ...

 Foto: Liliam Carvalho.
No dia 19 de abril de 2008, Dia do Índio, os guarani inauguraram as “Ocas”, a “Opy” (Casa de Reza) e a Escola Indígena Guarani, e festejaram o decreto que havia sido assinado naquela semana pelo governador Sérgio Cabral Filho que transforma em área de proteção arqueológica os 181 hectares (1,81 milhão de metros quadrados), onde se localiza a aldeia, nos limites do Parque Estadual da Serra da Tiririca, localizado entre os municípios de Niterói e Maricá. A área preservada vai da Ilha do Pontal, passando pela Praia do Sossego, Sambaqui de Camboinhas, Duna Pequena e Duna Grande. O então secretário estadual de Ambiente, Carlos Minc afirmou, “que a área considerada sagrada pelos índios por abrigar cinco sambaquis (cemitérios indígenas), tornou-se unidade de preservação permanente, a constituição garante esse direito e a Justiça Federal. O local é alvo de especulação imobiliária e chegou a receber autorização para a construção de 900 prédios”. Infelizmente seis hectares (60 mil metros quadrados) não entraram neste decreto, o que dá margem às construtoras continuarem com construções naquela área, mais os sambaquis mais importantes para os índios em seu solo sagrado foi preservado.

Foto: Rebeca Jaxuka
No dia 18 de julho de 2008, enquanto os índios guarani estavam reunidos em outro ponto do bairro reivindicando o reconhecimento da área de sambaqui deu-se alarme de incêndio na aldeia, tudo foi incendiado rapidamente. Poucas índias estavam na aldeia e correram para salvar três bebês que estavam numa oca e outras crianças que brincavam no terreiro, apenas o indio Joaquim Karaí Benite, de 43 anos estava no local, ele entrou na oca em chamas para retirar um indiozinho e teve queimaduras de segundo grau nas costas e no braço esquerdo. Oito ocas estavam em chamas em pouquíssimo tempo. Vidas humanas foram colocadas em risco, a escola, a cozinha, todos os eletrodomésticos, roupas, objetos pessoais, documentos, livros que guardavam segredos da cultura guarani e todo material escolar, um instrumento musical que tinha 320 anos, objetos sagrados que estão ali por mais de trezentos anos, tudo virou cinzas. O cacique Darci Tupã vinha denunciando as ameaças que a aldeia estava sofrendo dos opositores nos dois primeiros meses do ano ameaçando-os de dia e de noite, e que se tornou realidade. O Cacique Darci perguntava: “Porque fizeram isso? Nós estamos aqui para preservar, pra cuidar desse lugar. A gente só quer viver em Paz! Nós só queremos ter o direito de viver nesse lugar que foi dos nossos ancestrais!”. De acordo com a Polícia Civil, o incêndio foi criminoso. A pajé Lídia conta que "logo depois apareceram funcionários do instituto que cuida das florestas no governo estadual dizendo que a gente não podia mais continuar aqui, que tínhamos que sair. Nós batemos pé que não, e eles foram embora falando que a responsabilidade era toda nossa”. Devido o crime ser com índios, a Polícia Federal foi acionado, o que deve ter assustado os autores do delito. Mais por incrível que parece, esta situação criminosa provocou uma reação inesperada da população, dos meios de comunicação, profissionais liberais, os ambientalistas, vários artistas manifestaram seu apoio, vários setores da sociedade organizada e da sociedade como um todo em solidariedade aos indígenas guarani daquela aldeia abraçando-os e auxiliando-os a reconstruírem suas ocas e a ficarem na área que é deles. No dia 13 de setembro de 2008 a aldeia foi reinaugurada e rebatizada com o nome Tekoá Mboy-Ty, que quer dizer – Aldeia de Sementes!

Por: Liliam Carvalho

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A história se repete II ...

A Aldeia Tekoá Itarypú (do guarani tekoá, "aldeia", ita, "pedra", y, "água" e pu, "som"), que foi instalada em março/2008 na margem de cemitério indígena é um sítio arqueológico existente em Camboinhas, bairro residencial bastante valorizado da Região Oceânica de Niterói, foi vítima de incêndio criminoso em Julho/2008. Em pesquisa aos jornais locais da época encontramos relatos da situação do bairro antes da vinda dos índios guarani de Paraty-Mirim. Esses relatos nos mostram o que realmente provocou a ocupação dos índios ao local onde estão assentados até hoje em Duna Pequena.
Até meados de 1978 a Costa de Itaipu e do Oceano Atlântico era originalmente habitado por pescadores. A partir desta data a empresa Veplan Imobiliária teve aprovado a exploração arqueológica para projeto de urbanização da praia e margens da lagoa de Itaipu. Sítios arqueológicos e sambaquis foram aplainados a trator para facilitar o parcelamento e a demarcação dos lotes, acabaram com o extenso areal quebrando o ciclo natural de lagoa de arrebentação que existia em Itaipú, as pitangueiras, cajueiros e os coqueiros que existiam sumiram, uma marina seria construída ao lado de um apart-hotel, e começaram a lotear a área para fins de investimento imobiliário trazendo grande crescimento populacional que liderou as estatísticas da cidade entre os anos de 1980 e 1991. Segundo relatos dos índios, pescadores, estudantes, associações de sitiantes e da mídia local, os indígenas, desde 2000 vinham reivindicando através de manifestações públicas as terras de seus antepassados. Várias etnias indígenas chegaram a camboinhas trazendo suas danças e seus cantos rituais. Buscavam a preservação daquelas áreas e eram contra a especulação imobiliária e políticos mal intencionados. Os membros líderes e xamãs das famílias Guarani tomaram a decisão de retornar ao Espaço Sagrado deles e ocupar o local devido a conflitos na aldeia de Paraty-Mirim, e juntamente com outras etnias invocavam seus espíritos em busca de proteção aos sambaquis (cemitérios indígenas) daquele lugar. Durante anos os ambientalistas da cidade de Niterói vinham se mobilizando para a preservação da orla da lagoa de Itaipu, com a vinda dos índios àquela região a luta ambiental se fortaleceu contra a cobiça de alguns empreiteiros. A Família Guarani passou a ocupar o lote de uso do Projeto Meu Garoto, de George Rebello, que promovia aulas de Windsurfe e o replantio da mata atlântica nativa. O que se soube é que este velejador tinha consciência de que somente os índios poderiam deter o feroz avanço imobiliário naquele lugar, portanto a guarderia da extinta Associação de Velejadores estaria sendo muito bem ocupada.
O documento do Doutor em Antropologia, Tonico Benites, índio Guarani originário de Mato Grosso do Sul explica: “Em decorrência disso, este macro família em foco já conhecia há muitos anos este local como espaço de luta pelos direitos indígenas para garantir a sua sobrevivência sociocultural. Por essas razões, quando eles entraram em disputa tensa e acirrada direto com outras famílias Guarani pelos espaços de terra e fontes de recursos na pequena aldeia Itaxi, localizada no município de Paraty-RJ, as famílias inteiras vieram se assentar em camboinhas no mês de fevereiro de 2008. Este fato de mobilidade é comum entre as famílias Guarani quando rompe definitivamente a aliança política interétnica e boa relação com os seus vizinhos e, justamente para evitar conflito freqüente e violência física, portanto o grupo se afasta de seus vizinhos com quem entrou em desavença, passando a procurar outros espaços de terra e nova boa aliança. Dessa forma, historicamente conseguiu viver como etnia Guarani durante 500 anos e, desse modo ainda consegue equilibrar os desentendimentos constragentes, estes fatos é uma das estratégias culturais étnicos, passando mantiver a sua cultura vital diferenciada que é evitar o pior conflito, violência física, sobretudo, a dispersão de seus integrantes”. http://maricaense.com.br/wordpress/?p=2384
A família guarani constituída de Anciões, jovens e muitas crianças passou a construir suas “ocas” na restinga local - Duna Pequena com apoio da Funai, Funasa e do CCOB, enfrentando as dificuldades de sobrevivência e da não-aceitação da vizinhança, da associação de moradores do bairro e das empreiteiras.

Por: Liliam Carvalho.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A história se repete ...




A mais de oito mil anos habitavam a região os homens pré-históricos, os ancestrais indígenas e os povos coletores, caçadores e pescadores que deixaram grandes vestígios arqueológicos. Vieram os índios Tamoios, grupos tupis que dominava desde Cabo Frio até a região de Bertioga, em São Paulo. Tempos depois os Tamoios e traficantes franceses de pau-brasil expulsaram os índios Temiminós que habitavam originalmente a Ilha de Paranapuã, hoje Ilha do Governador (terra natal de Arariboia) e estes se transferem para a capitania do Espírito Santo onde são catequizados pelos jesuítas. Lá ajudaram os portugueses a expulsar os invasores holandeses, tempos depois ajudam a expulsar os franceses. Como recompensa pela vitória os portugueses ofereceram ao líder dos Temiminós, o cacique Arariboia ("Cobra Feroz", no idioma tupi. Arariboia também possuía um nome cristão de batismo, Martim Afonso de Souza) a porção direita da entrada da Baía de Guanabara, Niterói, que significa "Água Escondida" em tupi. Com a doação da sesmaria, Arariboia levou sua tribo para a vila de “São Lourenço dos Índios”, mais somente seria oficializada em 1573, data que consta no brasão da cidade de Niterói. A cidade foi fundada pelo cacique Arariboia onde Niterói é a única cidade brasileira que foi fundada por um índio. Niterói tem em sua história uma forte ligação da cultura indígena nos bairros e acidentes geográficos da cidade, como por exemplo, Icaraí (água ou rio Sagrado); Pendotiba (abundância de Palmeiras com cocos); Itaipu (água que sai do meio das pedras); Praia de Camboinhas, bairro nobre de Niterói localizado às margens da lagoa de Itaipu e em contato com o oceano Atlântico, limitando-se também com Piratininga e Itaipu. Esse lugar possui o sambaqui mais antigo do Brasil, com cerca de 8 mil anos de existência. A palavra sambaquis - de samba (mariscos) e eki (amontoados) em Tupi são morrotes deixados pelos povos sambaquieiros, e significa mariscos. São sítios religiosos, é onde estão seus mortos há séculos, onde os pajés conversam com os espíritos. Em março de 2008 um grupo de índios guarani vindos de Paraty, litoral sul fluminense, montou uma pequena aldeia com quatro ocas e uma escola no “costão” da praia de camboinhas. A intenção seria para travar a especulação imobiliária nas áreas não edificadas onde empreiteiras queriam construir 420 casas, e conseqüentemente destruir a ecologia das lagoas da região e os antigos cemitérios. O cacique Darci Tupã alega que ali há cinco sambaquis (cemitérios indígenas) e que desde 2001 vem alertando para isso, mais ninguém os ouviu. "Nossas raízes estão aqui, os sambaquis precisam ser preservados, essa terra é nossa, vamos implantar um sistema sustentável nas lagoas de Itaipu e queremos que esta escola diferenciada seja reconhecida, a primeira língua é o guarani, depois o português”. Vitimados por incêndio criminoso em 18/07/2008 onde toda aldeia foi destruída, os guarani não arredam pé do local, esperam a demarcação de uma reserva indígena para impedir que outros prédios sejam construídos sobre os sambaquis.

(Por: Liliam Carvalho)